Li, não sei onde, a ideia de que a crise da democracia era o resultado do fim das ideologias. Não sei se o esbater das idelogias no seio de alguns partidos pode ser causa para a descrença do sistema democrático, fiz vários exercícios mentais e não cheguei a qualquer resposta defintiva.
É verdade que em Portugal e em muitos países do ocidente europeu se assistiu ao claudicar de muitos líderes e partidos de centro, esquerdo ou direito, aos princípios do liberalismo puro e duro. Tony Blair é o exemplo mais evidente desta rendição.
Efectivamente, hoje a esquerda moderada quase defende as mesmas medidas económicas que os partidos liberais, as grandes multinacionais ou a banca, enquanto assumem a sua raiz esquerda na defesa de propostas fracturantes como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a eutanásia e o aborto, por vezes valorizam algumas medidas de justiça social.
Confesso que é pouco, muito pouco para alguém se dizer de esquerda, até porque há quem se assuma de direita e não tenha qualquer desacordo nas propostas fracturantes, embora no que toca ao apoio social tenda a exigir uma maior fiscalização.
Assim, hoje em pouco se distingue um esquerdista de terceira vaga de um liberal progressista, aliás, por vezes um conservador de esquerda sentir-se-á mais à direita que alguns progressistas de direita.
Logo no centrão não parecem existir diferenças económicas entre os partidos, enquanto conservadores e progressistas se repartem calmamente pela esquerda e direita, embora nestes últimos haja mais avessos a choques aos valores tradicionais. O único problema que vejo nisto é que em vez de projectos alternativos, temos alternância de pessoas com projectos semelhantes.
Neste caso as escolhas eleitorais seriam mais na capacidade dos candidatos do que nas suas ideologias que mal se distinguiriam. Assim sendo, sem a existência de choques ideológicos, a democracia poderia ainda manter-se credível.
Aliás não sei se é eficaz ter projectos alternativos altamente divergentes numa sucessão alternada de mandatos, ora teríamos nacionalizações seguida de privatizações, para logo a seguir se inverter as acções de um modo que penso se anulariam ou destruiriam qualquer estrutura económica e social a longo prazo.
Assim, pior que o fim das ideologias, é o fim da credibilidade dos homens que as colocam as ideias em prática, os políticos. A crise da democracia está na possibilidade de derrota da credibilidade dos homens que se candidatam.
Desde há muito que uma máxima na política faz fé no sistema “em política além de se ser sério, é preciso parecer” e este segundo aspecto está a falhar redondamente e não há democracia que resista à suspeita.

