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Archive for Setembro, 2020

Quando o Estado se mete a educar o Povo… dá nisto

Meu artigo no diário Incentivo de hoje.

EVOLUÇÕES DO ESTADO POLÍTICO A DAR LIÇÕES DE MORAL

Com os anos a passar por mim vejo-me cada vez mais a olhar para trás e a analisar a mudança dos tempos na sociedade. Depois pergunto-me: temos evoluído no bom sentido ou andamos às voltas e ficámos na mesma ou até recuámos enquanto se foi vendendo a ideia de avanço para que aceitássemos certas leis morais que nos foram impondo?

Um dos campos em que penso com mais frequência refere-se a questões de boa educação no trato social. Quando criança, a generalidade dos pais de então educavam-nos para que nos espaços com bancos ou em filas darmos o nosso lugar aos mais velhos, a senhoras com crianças ao colo, aos doentes ou outras dificuldades. Nem questionávamos isso, era uma questão de boa-educação.

Depois veio a fase em que a minha geração, onde muitos já eram jovens pais, foram politicamente alertados para os direitos das crianças e da cidadania. Então, os mais novos tinham os mesmos direitos dos adultos e os pais pagavam os seus impostos para que os serviços fossem obrigados a ter cadeiras para todos e as filas fossem rápidas. Era com orgulho que se via uma criança ou adolescente a ocupar um banco e a não ceder a sua vaga a nenhum adulto. Os serviços e os transportes nunca alcançaram o objetivo de rapidez e lugares para todos. Ninguém questionava, pois era moral cada um sentir-se um cidadão de pleno direito sem cedências desde pequeno.

A falta da qualidade de serviços levou a outra fase, o Estado impôs lugares reservados para pessoas que já não eram bem iguais, passou a haver nos edifícios e nas filas espaços para atendimento prioritário a certos grupos. Esta evolução não teve contestação, afinal, apesar de todos cidadãos, nem todos estamos em igualdade de condições e parecia justo tratar diferente casos distintos.

A seguir chegou a fase de inclusão. O Estado explicou a moral de que tudo tinha de ser feito de modo a não se distinguir ninguém de forma ostensiva e isso refletiu-se, sobretudo, nos espaços com filas como supermercados, venda de bilhetes, etc. Acabaram-se as caixas prioritárias (um bom motivo por vezes para ter menos uma pessoa a atender) e pode-se escolher a fila mais curta ou mais rápida que agora nada impede que após um tempo de espera não apareça alguém onde todos os outros são obrigados a ceder o seu lugar ou o trabalhador a chamá-lo, caso contrário: o cidadão já cansado de esperar, ou o operário, ou a empresa pagam uma multa por desrespeito à lei desta moral.

Nestas voltas, todas fomentadas pelo Estado, após os governantes se meterem anos a fio na etiqueta social e de desvalorizarem princípios de boa-educação que se aprendiam em família, tudo em nome de uma superioridade moral que certas ideologias estão sempre dispostas a vender, quem arranjou mais uma fonte de receitas foi o Estado e prejudicado ficou o cidadão comum de pleno direito.

Pouco depois do 25 de Abril o Estado criou uma disciplina no 7.º ano de escolaridade, penso que se chamava “Ciências Sociais”, e da qual fui aluno. Apesar do nome inocente, o seu programa era uma educação para a cidadania e ali se evidenciavam muitas das virtudes das economias de mercado central dos países de Leste e os defeitos do capitalismo no Ocidente. Talvez muito do que lá se aprendia fosse verdade, mas só se dizia uma parte de modo a moralizar os alunos para uma ideologia com superioridade moral sobre a outra. Calhou-me a sorte de ter tido uma excelente professora, penso que ela não desrespeitou o conteúdo da matéria, mas foi capaz de limpar a via tendenciosa e de mostrar de forma clara o jogo todo para não sermos alvo de uma lavagem cerebral.

Nos últimos anos o Poder em Portugal fez chumbar alunos por falta a uma disciplina de educação para a cidadania alternativa a religião e moral cujos pais não queriam os filhos a frequentar, isto por consideraram que nesta o Estado se estava a intrometer na sua esfera de educação. Confesso que, lendo na internet as diretrizes do programa da cadeira, concordo com tudo o que lá está, mas daí e vendo as voltas que é possível dar ao texto e como o Estado desbaratou a boa-educação em nome de uma moral maior e daí agora já cobra receitas, confesso que tenho muitas dúvidas e até medo de quem no fim tem razão, mas estou convencido, em política, o Estado fica a ganhar e não o cidadão.

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