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Archive for 4 de Maio, 2016

Meu artigo de ontem no diário Incentivo:

NOVAMENTE O GLIFOSATO

Não sou o primeiro articulista residente a trazer o assunto do glifosato ao Incentivo, mas há questões que são independentes da ideologia e para enfrentar o interesse económico de alguns impérios empresariais só unindo esforços de várias frentes e a partir da base da sociedade se poderá mudar esta situação que silenciosamente mina a saúde das populações. Este é um artigo de opinião que se pretende despertar consciências e forçar quem tem poder para mudar o estado atual neste problema incómodo e pouco conhecido dos cidadãos.

Este fim-de-semana a comunicação social informou, na sequência de uma investigação feita pela Organização Mundial de Saúde para avaliar do grau de contaminação das pessoas pela molécula potencialmente cancerígena glifosato, utilizada em numerosos herbicidas na maioria dos países do mundo, que na amostragem representativa dos Portugueses se deduz que todos nós que vivemos em Portugal estamos contaminados com estre produto, ou seja, cerca de 10 milhões de pessoas em cerca de 10 milhões de habitantes. É assustador!

Esta situação não é tão preocupante noutros países europeus com preocupações ambientais mais profundas, prova de que não é um mal que os Portugueses têm de se conformar, pois se o mesmo estudo demonstra que o mal não é tão grave noutros Estados é porque há medidas para o minimizar que por cá não se implementaram.

Recentemente este assunto foi debatido nas Assembleias da República e dos Açores a partir de propostas apresentadas com o objetivo de interditar o uso de herbicidas com esta substância em Portugal e na Região respetivamente, mas como é normal quando há uma medida legislativa que prejudica os interesses de um império multinacional ou um grupo profissional acomodado à situação, os partidos políticos com maiores responsabilidades executivas encolhem-se, arranjam desculpas de que é prematuro, que é preciso estudar mais o assunto e chumbam as medidas tendentes a mudar a situação. Foi o que aconteceu no Continente e no Parlamento Regional.

A questão também foi levada à Assembleia Municipal da Horta a recomendar a interdição de herbicidas com este princípio ativo pela Câmara, o assunto mereceu cautelas mas não foi chumbado, baixou à Comissão Permanente para se criar uma versão que permitisse propor uma redução do uso do glifosato no Faial e a posterior aprovação em plenário. Espero ver se ao nível local se consegue ser mais corajoso do que o foram certos partidos ao nível regional e nacional.

Recordo que nos Açores, inclusive no Faial, por iniciativa própria, como por exemplo na Praia do Norte, existem autarquias que erradicaram o uso de pesticidas nos espaços públicos e nas bermas das estradas a seu cargo. Muitas vezes a mudança da sociedade começa nos níveis mais baixos para depois influenciar os de cima, pode ser que este seja o caso.

Agora que estamos a chegar à Primavera espero não ver novamente as bermas de estradas no Faial com uma faixa amarela de vegetação queimada por pesticidas, frequentemente com glifosato, como tenho visto em anos anteriores, sabendo eu que uma fração destas moléculas perigosas para a saúde é arrastada pela chuva e vai direitinha para a água subterrânea com risco de entrar nas captações de abastecimento público e nos seres vivos que ingerimos na alimentação e, consequentemente, armazenar-se no nosso corpo com todos os perigos inerentes.

Tanto quanto sei, o município da Horta não analisa este pesticida na água de abastecimento público regularmente por a tal não ser obrigado e suspeito que a Lei Portuguesa não obriga mesmo a estas análises porque outros interesses e forças importantes de grupos profissionais e empresas multinacionais influenciaram mais a decisão de quem legisla do que a defesa do cidadão comum, mas claro que isto não passa de uma suspeita, mas sei que não é exclusivamente minha.

Uma coisa é certa: os Portugueses estão a ser vítimas desta timidez política que impede ser-se arrojado ambientalmente, quer por muitos deputados não acreditarem nos indícios de riscos divulgados pela Organização Mundial de Saúde, quer por temerem descontentamento de agricultores que se acomodaram ao uso do glifosato ou das multinacionais que lucram com a sua comercialização e quer ainda alguns por não terem conhecimento da matéria e delegarem a decisão nas diretrizes partidárias, sendo estas muito mais expostas aos interesses financeiros e de grupos de pressão a curto prazo do que à imposição de medidas de defesa das pessoas a longo prazo.

Agora está provado que o caminho seguido em Portugal deixou a sua população no grupo das mais contaminadas pelo glifosato ao nível da Europa e nenhuma força que tenha sido Governo nas últimas décadas teve ainda coragem de impor medidas que ponham de facto termo ao problema que se alastra silenciosamente, até porque as propostas de erradicação desta molécula apenas tem sido levadas aos parlamentos por entidades que nunca governaram o País ou a Região, um sinal claro que politicamente há um custo em corrigir-se esta situação de saúde pública.

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