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Archive for 23 de Março, 2016

Meu artigo de opinião publicado ontem no diário Incentivo:

REFLEXÕES POLÍTICAS EM TEMPO PASCAL

Esta semana relembra-se a decisão de um tribunal em Jerusalém, onde um cobarde, para manter-se no seu cargo de nomeação, optou por agradar aos poderes políticos e religiosos locais e deixou que um acusado das autoridades, que ele interrogara e lhe parecera inocente, fosse julgado na praça pública, precisamente depois dos acusadores, através de fazedores de opinião estrategicamente distribuídos entre as pessoas, terem manipulado a informação e sugerido que o réu sem cargos, mas que lhes fazia oposição ao pregar a justiça e o amor, era causa de males que afligiam o povo. O juiz, com um sentido de oportunidade diplomática, desresponsabilizou-se da condenação do inocente, lavou as suas mãos e ficou amigo do rei, do sumo-sacerdote da cidade e bem perante o imperador.

Nesta exposição, em que retirei qualquer nota religiosa, retratei o julgamento de Jesus há cerca de dois mil anos, um acontecimento que possui muitos dos vícios que degradam as sociedades democráticas atuais. A ambição e a cobardia de quem ocupa cargos públicos, a desresponsabilização dos que exercem o poder e a condenação dos críticos na oposição através de uma engenharia comunicacional habilmente trabalhada e divulgada por quem governa.

A principal diferença deste julgamento com a política atual é que o réu, Jesus, não procurou defender-se, nem tentou por qualquer meio conquistar o poder para si próprio ou obter imunidades, ferramentas que os políticos constroem à sua volta para salvaguardar os seus cargos ou se desresponsabilizarem dos seus atos; muito menos criou alianças promíscuas para se proteger das acusações. Manteve-se pacificamente a assumir a justiça e o amor social como meio de o Homem se salvar neste mundo sujo e corrupto.

Apesar da mensagem teológica à volta deste caso estar na base da fé cristã e é o sustentáculo da Igreja, Jesus foi também um mensageiro de um modelo social terreno com eixos de ação bem definidos: a opção preferencial pelos pobres com o dar-se ao outro apenas com amor e desinteresse; o ser justo sem julgar e servir do seu posto o próximo sem se servir a si. Curiosamente não é uma proposta política, pois esta exclui qualquer intenção de conquistar o poder e de lutar por uma causa. Apela ao trabalho com partilha dos seus frutos, mas recusa o assalto ao egoísta. Anuncia um modelo, mas não impõe. Denuncia o mal a corrigir, mas não condena e, sobretudo, não apela à revolta e aceita as consequências da derrota sem subterfúgios.

Talvez não haja ideologia política no ocidente que não procure tirar proveito das propostas de Jesus na luta pelo poder. Não conheço nenhuma que não escolha os conselhos dEle que lhes convém e omite o que não é favorável à sua estratégia. Na realidade, a doutrina da Jesus apenas se torna completa com uma componente acima da mera proposta social: a vertente religiosa e de fé. Pois como defender uma causa e recusar que esta seja conquistadora se não houver uma outra realidade superior onde esta se realiza plenamente?

Se a ressurreição de Cristo é considerada a prova da parte religiosa da sua mensagem, não menos verdade o seu comportamento em tribunal é um sinal claro da crença na existência de uma componente sobrenatural que suplanta a defesa pessoal e a conquista do poder terreno para construir o modelo social anunciado por Ele.

Agora, olhando a sociedade que nos cerca e ver a injustiça a alastrar-se globalmente, a crescente desigualdade social, os refugiados não acolhidos, os poderosos a dominar cada vez mais o mundo, os confrontos partidários sem entendimentos em favor do bem-comum, a manipulação da informação, os aproveitamentos egoístas do posto político para a autopromoção, a desresponsabilizações dos detentores dos cargos públicos do mal que fazem e ainda a continua pregação da idolatria do dinheiro para o consumo como fim ou para alimentar a ganância de uns à custa de outros, é bem difícil querer intervir no mundo sem questionar para onde vai esta civilização atual ao afastar-se dos valores defendidos por Cristo.

Nesta Semana Santa, em que me questiono sobre como intervir em sociedade conciliando os princípios religiosos em que acredito, onde apenas vejo estratégias cada vez menos cristãs, não por serem laicas, mas por serem interesseiras ou egoístas, injustas ou desumanas e guerrilheiras ou odiosas, onde o bem-comum passa para segundo plano em detrimento da ganância e da ambição de dinheiro ou de poder, faço votos para que todos os leitores deste artigo tenham uma Feliz Páscoa.

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