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Archive for 6 de Outubro, 2015

O meu artigo de ontem no diário Incentivo:

LEGISLATIVAS  SURPREENDENTES OU NÃO TANTO ASSIM

Quando terminou a campanha eleitoral para as legislativas sabia-se que qualquer resultado eleitoral seria uma surpresa para uma parte dos Portugueses: se ganhasse a coligação Portugal à Frente seria-o para aqueles que já estavam convencidos há meses que Passos Coelho não tinha qualquer hipótese de vencer; se ganhasse o PS seria-o para os que se convenceram com as sondagens.

A verdade é que após Seguro vencer duas eleições consecutivas, nas europeias o PSD já estava coligado com o CDS, António Costa traiu o Secretário-Geral do PS com o único argumento de que era capaz de ter melhores resultados eleitorais. Não apresentou nenhuma ideia nova para Portugal enfrentar a crise, mas muitos militantes e simpatizantes acreditaram e deram-lhe a vitória, só que este limitou-se cavalgar a onda populista antiausteridade e a mudar oportunisticamente de opinião sem qualquer estratégia clara para um Governo com a permanência do País no euro e no tratado orçamental que dizia defender.

Passos Coelho por seu lado foi subserviente ao longo de três anos à supervisão e às imposições da troika, mereceu críticas de todas as frentes, algumas mortais vieram mesmo de militantes sociais-democratas. Se o Primeiro-ministro se acomodou aos credores externos, com os críticos nacionais foi um resistente estoico, apenas cedeu em setembro de 2012 na questão da TSU, desde então, com punho de ferro, ultrapassou todas as crises e ataques internos, inclusive uma rebelião de Portas no verão de 2013, e acreditou na recolha posterior de frutos face às estatísticas negativas de então devido à austeridade. Esperou no meio da tempestade para que viesse a bonança e os primeiros resultados positivos apareceram: não veio a espiral recessiva anunciada pelos opositores, não houve o segundo resgate previsto pelos adversários e a economia e o emprego começaram a recuperar timidamente, mesmo com a negação de muitos. Mas o desgaste estava feito, era previsível que já não conseguisse recuperar e vencer em 2015. Praticamente Passos estava derrotado à partida.

Então o que se passou no último ano para que no fim da campanha o resultado virasse a tendência favorável para Passos em detrimento de Costa?

De facto, no início qualquer secretário-geral do PS parecia mesmo capaz de vencer um Governo tão impopular, mas Costa em vez de apresentar um programa consistente como alternativa para defender os reais problemas de Portugal, optou pelo populismo fácil da recusa de qualquer sacrifício, não só os injustos, como até os compreensíveis e necessários, isto para agradar a todos e com isso contradizia-se e ia perdendo a confiança de todos. Não foi solidário com os socialistas gregos quando parecia dar jeito ir atrás do Syriza, mas logo virou as costas a este modelo quando lhe era inconveniente e com isso ia-se desacreditando ainda mais. Recusou cooperar com o Governo na segurança social, uma questão urgente aos olhos de muitos, para conquistar a extrema-esquerda e com isso foi perdendo o centro. Encomendou um programa económico escrito compatível com o euro e o tratado orçamental para atrair o centro, mas ao falar renegava o seu conteúdo e com isto nem recuperou o centro nem segurou a extrema-esquerda. Entretanto foi negando os sinais de melhoria de Portugal na saída da crise e até transparecia a ideia de que desejava o pior para que o povo lhe desse apoio, mas os factos não lhe davam razão e viu-se ultrapassado pela recuperação ténue que os Portugueses já viam e, como machadada final, anunciou inviabilizar o orçamento de estado se Passos vencesse, uma ameaça aos princípios democráticos de uma eleições, com tal tique antidemocrático perdeu eleitores de todos os lados e saiu derrotado no que à partida até era fácil vencer, bastava ter sido competente, coerente, ter um projeto viável e mais justo que o da troika acatado por Passos e Porta.

Ah! dizem alguns, mas agora criou-se uma maioria antiausteridade que se deve coligar!… Só que isso é cometer o mesmo erro de Costa: a união dos contraditórios impossíveis de compatibilizar acaba sempre em autodestruição. Entre a CDU, que é contra a zona euro e o pacto de estabilidade; o BE, que defende a permanência no euro sem austeridade tal como o falhado modelo do Syriza de janeiro passado; e o PS, que assume o pacto de estabilidade e a manutenção na moeda única e cujo programa escrito tem sacrifícios; existem muito mais diferenças de fundo do que entre os projetos do PS e o de Passos para um País atado pelo sobre-endividamento e sem produzir o suficiente para se autossustentar. Por isso, Costa não se aproximou de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, o que considerou uma coligação negativa, e mostrou-se mais disposto a negociar com o PaF, resta saber como ele vai sobreviver dentro do seu partido ou se ele e Passos se vão conseguir entender para salvar o País da situação em que se encontra ou por quanto tempo o PS vai resistir a uma desforra socialista a este governo minoritário pelo chumbo do PEC IV sem se importar com Portugal.

Assim, resta-me desejar que na nova Assembleia da República as forças políticas em presença coloquem em primeiro lugar o interesse nacional à frente dos egoísmos partidários para a construção de um futuro sustentável para o País, mesmo que com sacrifícios de curto-prazo e essas negociações consigam soluções viáveis, sirvam à recuperação de Portugal e sejam mais justas que as dos últimos anos.

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