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Archive for 21 de Abril, 2015

Meu artigo de opinião publicado hoje no diário Incentivo:

TRANSPORTES AÉREOS:

DOS BENEFÍCIOS TEÓRICOS PARA OS AÇORES AOS MALEFÍCIOS REAIS PARA O CANAL

Penso que quase toda a gente já passou pela experiência daqueles projetos que pareciam perfeitos quando pensados mas que tiveram péssimos efeitos na prática. Tal como já muitos viram que frequentemente as propostas políticas que mais nos agradam nos partidos que querem ser Governo não são viáveis depois de serem eleitos. A que muitos candidatos até possam estar bem-intencionados, só que o problema é mesmo a diferença entre a teoria, onde as coisas parecem funcionar muito bem, e a prática, onde as ideias pretendidas são de facto inviáveis ou têm consequências desastrosas para uma parte da população ou certas regiões.

Todavia, também não posso excluir que existam políticos capazes de apresentar teorias que soam perfeitas mas sabem que serão enviesadas no terreno pela prática para com isso atingir objetivos ocultos bem distantes do discurso apregoado. Mas, dando o benefício da dúvida e excluindo a teoria da conspiração já levantada, a verdade é que o novo modelo de ligações aéreas nos Açores arrisca-se a se tornar num exemplo de como os bons princípios divulgados para o Arquipélago podem ser altamente prejudiciais ao Faial e ao Pico.

Até concordo que se crie um teto no preço das ligações ao exterior do Arquipélago para que os bilhetes se tornem mais baratos para todos, tal como estou de acordo com a importância de se facilitar a circulação das pessoas, não só inter-ilhas, mas também ao Continente e à Madeira e subscrevo a importância de se criarem melhores condições para cativar turistas através de um maior número de viagens abertas à concorrência das companhias aéreas, inclusive “low-cost”, de modo a oferecer tarifas e horários atraentes que incentivem à visita. Foram estes os objetivos que deduzi serem a base do novo modelo de transportes aéreos para os Açores na exposição do Sr. Secretário Regional do Turismo e Transportes numa sessão de esclarecimento organizada pela JS num hotel do Faial e onde estive presente.

O problema é a forma como aqueles objetivos resultam na prática. É lindo dizer que o Arquipélago se torna como um aeroporto único, mantendo as mesmas cinco “gateways” de antes e que tanto um Faialense ou um Picoense podem optar por sair pela sua ilha ou por São Miguel ao mesmo custo, tal como um Micaelense pode sair pela Horta ou Pico para ir para Lisboa. Só que o conhecimento do terreno diz-me que muitos habitantes das duas primeiras ilhas passarão a sair por Ponta Delgada e quase ninguém da terra do Arcanjo passará a sair pelo Faial ou Pico e com isto serão os aeroportos do Canal que ficarão cada vez menos importantes como portas de entrada ou saída da Região, o que conduzirá ao desinteresse das companhias de aviões por estas infraestruturas.

Igualmente é muito bonito ter confiança que a SATA Internacional, com apenas três aviões para todas as rotas com o exterior do Arquipélago, saberá adaptar-se às novas exigências com tão poucos aparelhos, mas já não é agradável aperceber-me que a tão grande boa vontade do Governo em comprar um grande navios para as ligações entre São Miguel e a Terceira, que disponibilizará uma oferta muito maior que a procura nesta rota marítima, já não existe quando se levanta a hipótese de adquirir mais aeronaves para a transportadora aérea regional sob a tutela do mesmo Secretário Regional e onde existe o receio de carência de aparelhos e a oferta já não satisfaz as exigências do Faial e Pico. Na realidade esta perspetiva pode causar o esvaziamento das “gateways” do Canal que passarão a ter menos importância e a ser menos interessantes para as companhias de aviões.

Concordo que cada vez mais os turistas programam as suas viagens através de portais da internet através de computadores, “tablets” ou “smartphones”, mas ficou claro na sessão que eles preferem ligações ponto-a-ponto, ou seja, sem escalas e que a oferta do número de viagens diretas aumentou exponencialmente para Ponta Delgada e reduziu-se para Horta, enquanto o Pico passou a ter horários repulsivos. Mais uma vez isto provoca repulsa às “gateways” do Canal, que assim tendem a esvaziar-se, a gerar maior desinteresse das companhias de aviões e a reduzir atratividade do Triângulo como destino turístico.

Assim, pelo que conheço da realidade dos Açores, estamos perante um modelo de transportes aéreos cujos princípios teóricos são bons, mas onde todos os indícios apontam para que na prática provoquem dificuldades aos residentes do Faial e Pico e ao desenvolvimento turístico do Triângulo, levando mesmo ao esvaziamento da importância dos aeroportos destas duas ilhas como portas de entrada e saída da Região. Para enfrentar esta perspetiva negativa as populações destas têm de se unir e ter uma redobrada atenção antes que os malefícios deste modelo teoricamente ideal se torne na prática demasiado penalizador para o Canal e passe à situação de irreversível.

Um modelo que pode sem dúvida tornar-se num verdadeiro teste à capacidade de resistência e de união de Faialenses e Picoenses na defesa das suas terras abraçadas pelo Canal.

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