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Archive for 25 de Março, 2015

Meu artigo de ontem no jornal Incentivo.

NA FALTA DE IDEIAS… DEBATEM-SE CASOS

Desde o início do mandato do atual governo de Passos Coelho até junho do ano passado a discussão política em Portugal fez-se, sobretudo, no campo das opções ideológicas sobre as soluções financeiras para crise: incentivou-se a indignação ou a rebelião contra a austeridade tendo em conta os sacrifícios que impunha; lutou-se contra os cortes de rendimentos salariais e de pensões levando as medidas orçamentais ao Tribunal Constitucional; publicitou-se até à exaustão o insucesso das práticas seguidas usando o aumento da dívida pública como prova; fizeram-se abaixo-assinados a exigir a renegociação da dívida com os credores internacionais; lançaram-se imensas certezas de que o País não ia conseguir concluir o programa da troika sem um novo resgate; e depois, quando se tornou claro que sim, deu-se a certeza da necessidade de um programa cautelar para se sair do memorando. Só que em meados do ano passado verificou-se que todas estas profecias de catástrofe financeira do Estado falharam.

Assim, em junho do ano passado, Portugal já concluíra sem novo resgate ou programa cautelar o memorando da troika, as taxas de juro sobre a dívida soberana tinham baixado para níveis suportáveis, o Pais distanciara-se do topo do clube dos Estados com maior risco de bancarrota, o Governo começou a financiar-se nos mercados em boas condições, o saldo primário das contas públicas era positivo, a economia crescia, não ao abrigo das obras públicas mas pelas exportações, e o desemprego nacional devagar (ao contrário dos Açores) continuava a descer ao longo meses consecutivos.

Nem tudo tinha sido bom de facto. Há que reconhecer os elevados e dolorosos custos sociais destas vitórias financeiras e económicas alcançadas pelo Governo: aumento da emigração com destaque para a hemorragia de jovens licenciados, o desemprego atingira o valor mais alto de sempre, houve uma enorme diminuição dos rendimentos laborais de muitos portugueses da classe média, a instabilidade laboral cresceu ao abrigo das ideias de flexissegurança no trabalho e os cortes de alguns apoios económicos a pessoas injustamente afetadas pela austeridade passou a uma praga superior à dos oportunistas habituados a viver à sombra de esquemas de ação social, pois também há que ter a coragem de assumir que estes últimos existem.

Contudo, dados os vários sucessos financeiros do Governo e do País para sair da bancarrota em que Sócrates nos deixara e face às melhores perspetivas sociais para o futuro ao vencer-se o mais difícil, a política nacional deixou o campo da discussão económica e entrou no domínio dos escândalos. Se nos primeiros três anos, à exceção da licenciatura de Relvas, pouco se atacou a idoneidade dos governantes, assim que Portugal deu como encerrado o memorando com a troika, em Portugal a política começou a centrar-se não no debate de estratégias para o futuro, mas sim nos escândalos em série.

Assim, depois da saída da troika, tivemos os casos Tecnoforma, a corrupção nos vistos gold, o não pagamento por Passos das dívidas à segurança social e a lista VIP. Pior, os casos duram pouco mais de uma semana e deixa-se de falar de um antes de se descobrir toda a verdade para se começar a falar no seguinte.

Esta forma de fazer política para mim demonstra duas coisas: primeiro, já não é sustentável a ideia de que o atual Governo falhou em toda a linha, pois ultrapassou os maiores problemas financeiros da crise e este tema esgotou-se como argumento da oposição socialista, daí a fuga para a verdade de Costa quando disse que o País estava diferente, subentendendo-se para melhor. Segundo, à exceção dos partidos mais radicais como o BE e a CDU, que têm de facto um projeto de futuro muito diferente, o líder do PS não tem ideias muito distintas para governar Portugal das seguidas pelo atual executivo.

Assim, na falta de ideias políticas diferentes e de soluções alternativas, levantam-se os podres que estão escondidos debaixo do tapete, quer sejam manchas na vida individual, quer sejam suspeitas de atos de ética e legalidade duvidosa. No primeiro grupo chegou-se a recuar aos últimos anos do século passado e aos primeiros da anterior década, tanto tempo que já prescreveram e a uma distância demasiado longa para que as redes tentaculares dos maiores partidos já não soubessem há muito secretamente esses casos, deixando-os guardados para o momento em que a falta de ideias e de argumentos escasseassem no debate político. Em paralelo, na internet surgem telhas de vidro na oposição, então fecha-se depressa o caso para não haver mais estragos mútuos nestas retaliações e começa-se no seguinte.

Não que eu desculpe ou defenda Passos Coelho nalguns destes erros e desculpas mal elaboradas. A minha consciência não compactua com a falta de ética e falhas em função do lado de onde vieram, mas, fico triste que o debate político em Portugal se tenha virado para esta via devido à falta de ideias ou diferenças substanciais na estratégia dos tradicionais maiores partidos nacionais, o denominado arco da governação, pois isto só descredibiliza a democracia e demonstra a inexistência de alternativas dentro do atual sistema, por isso há quem arrisque em vias radicais e com resultados ainda duvidosos, se não mesmo perigosos, como se está a ver na Venezuela e na Grécia.

Prefiro a estratégia das ideias, da busca de soluções e quando necessário consensos para resolver os problemas políticos de um Estado, Região ou Local, pois na falta destas, a política deixa de discutir o futuro e passa a atacar as pessoas e os pormenores mediaticamente vendáveis sem construir esperança no futuro.

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