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Archive for 13 de Janeiro, 2015

O meu artigo de opinião de hoje no Jornal Incentivo

SOU UM POTENCIAL DESPEDIDO DA BASE DAS LAJES

Na semana passada os Açores receberam duas notícias negras de grande alcance: o massacre da redação do jornal satírico Charlie Hebdo em Paris, perpetrado por jihadistas islâmicos, nascidos e educados em França, e, a outra, a decisão norte-americana de ao longo do corrente ano despedir 500 dos 900 portugueses que trabalham na base das Lajes.

Confesso que foi muito mau para uma semana só! Um dia negro para a liberdade de expressão mundial e outro para a socioeconomia dos Açores. Se no primeiro caso, mais trágico, já não se pode corrigir o passado e ressuscitar os mortos, o outro talvez seja em parte reversível, embora difícil sem uma guerra na Europa que coloque os interesses dos Estados Unidos em perigo e aumente a importância geoestratégica do Arquipélago e este cenário pode resultar noutra desgraça ainda maior.

No caso do terrorismo, há sobretudo uma barbárie irracional e o desconhecimento de como lidar com o fanatismo religioso vindo de uma cultura diferente da ocidental. Contudo, no despedimento coletivo na Terceira, há muito do egoísmo e da incompetência dos políticos nacionais e regionais, um vício de décadas que os impede de assumir a realidade dos problemas e de implementar as soluções adequadas para minimizar os seus previsíveis impactes com a devida antecipação.

Apesar de solidário com as vítimas do jornal francês e condenar sem qualquer atenuante os atos criminosos e os seus autores, eu não sou um Charlie, pois não me revejo naquele género de humor satírico que toca nas crenças e nos valores de cada um sem qualquer pudor. Mas digo com toda a força que respeito e reconheço o direito de existirem e ninguém os deve tentar silenciar e se há dúvidas entre a calúnia e a liberdade de expressão, tal resolve-se no tribunal. Nunca com armas.

Já com os nossos concidadãos a ser despedidos na infraestrutura norte-americana da Terceira, além da minha solidariedade, há uma comunhão total com eles e por isto eu também sou um potencial trabalhador despedido da base das Lajes. Não por lá ter amigos, mas porque a inépcia de quem defende este País e Região nos deixa a todos reféns das suas incapacidades, apesar de eleitos por nós.

Desde o fim da guerra fria que se sabia que os Estados Unidos estavam a desmobilizar pessoal nas bases militares pelo mundo fora, mas as forças sindicais e políticas continuaram a tratar o problema à “portuguesa”, sem encarar a previsível realidade, a adiar compromissos à espera que as coisas não caíssem em cima do mandato de quem estava no poder e quem viesse a seguir que ficasse com a batata quente – pois politicamente era impopular negociar um bom pacote de despedimentos por antecipação, quando ainda se tinha força e tempo para procurar um acordo com calma, uma vez que isto daria oportunidade aos opositores de os acusarem de não defenderem bem os nossos interesses. Por isso os representantes e seus adversários têm todos culpas de não ter sido feito um bom trabalho de casa a tempo, só que os Americanos são pragmáticos, não brincaram em serviço e atiraram a suas cartas à mesa.

Infelizmente, enquanto prevejo os nossos governantes a acusarem-se uns aos outros e a darem paliativos de curto-prazo como propaganda, perspetivo a longo-prazo dias negros para a economia da Terceira e, por arraste, impactes negativos nas outras ilhas e, sobretudo, um futuro muito sombrio para as famílias afetadas pelo despedimento.

Um problema que acontece quando já se destruiu grande parte da economia privada da Região, que poderia inicialmente absorver parte desta mão-de-obra se subsistissem ainda muitas empresas economicamente viáveis, mas as últimas décadas foram corrosivas para os empreendedores particulares, pois o Governo dos Açores quis absorver praticamente tudo até à congestão atual da administração pública regional, que assim também não tem capacidade para acolher mais gente, pois instalou-se este estado de mediania e de escassa riqueza do Arquipélago, mas tentacular, e apesar de décadas de Autonomia, tornámo-nos demasiado frágeis para amortecer o choque de um despedimentos com esta dimensão na base das Lajes, que nunca seria fácil de digerir.

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