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Archive for 8 de Outubro, 2014

O meu artigo de ontem no diário Incentivo:

DA CAPITAL DOS AÇORES A OUTRAS CONFUSÕES

Anda muita gente chocada, sobretudo na internet, por que parece que um manual escolar escorregou na tentação de atribuir aos Açores uma capital e, como muitas vezes acontece a quem comete este pecado, nomeou Ponta Delgada com esse atributo. Este lapso deixou evidente que produzir mercadoria de ensino não é garantia de sabedoria dos seus autores e talvez isso justifique muito do que se diz do nível de formação dado pelas nossas escolas em Portugal.

Do mesmo modo, o facto de a Comissão Europeia estar há quase 10 anos sob a liderança de um Português não assegura que esta instituição conheça bem Portugal, o que não só fundamenta a inadequação de aplicação à realidade nacional de grande número de diretivas aprovadas em Bruxelas, como a circunstância de logo a seguir ao escândalo do manual ter surgido numa revista sobre as Regiões Ultraperiféricas do “pretenso” governo da Europa precisamente o mesmo erro.

Confesso que tais confusões em geografia não me incomodam e se o caso dos Açores fosse único ao menos poder-me-ia sentir-me só. Todavia, além de já me ter habituado no estrangeiro a ver que há muitos que pensam que Portugal é uma das províncias de Espanha (para espanto e vergonha nossa e não deles!), também por cá ninguém se choca ao chamar Holanda aos Países Baixos, quando aquele nome apenas se refere a duas das doze províncias daquele reino na Europa, e, apesar da sua capital legal ser Amesterdão, muitos ignoram que a sede do governo e parlamentos estão em Haia.

O que me preocupa não é o título que se possa dar a Ponta Delgada ou ao Corvo, mas certas tentativas centralistas no domínio económico, investimento e de serviços públicos que ora os concentram na maior cidade da Região, ora lhes dá para disfarçar e favorecer os que são demasiado pequenos para lhes fazer sombra e criam as ilhas de coesão, sempre em prejuízo de quem está no meio destes extremos como o Faial e assim reforçam o seu poder relativo na Região.

Os erros de ignorância geográfica são tristes, mas não são perigosos. O viciar a geografia é que muitas vezes é intencional e esconde maldades. São estas que exploram bairrismos dos mais fracos para atrair a si mais poderes, são estas que disfarçam na rubrica das verbas não agregadas dos orçamentos regionais os dinheiros cuja repartição depois desvirtua uma distribuição inicial mais equitativa e equilibrada dos investimentos públicos em prol dos mais poderosos económica e politicamente.

A nossa ignorância de chamar ao país o nome de províncias suas não favorece as Holandas do Sul e do Norte, nem prejudica a Frísia o Brabante do Norte ou outra qualquer província e não foi por ignorância geográfica de manuais ou da Comissão Europeia que, apesar dos fundos comunitários a rodos que entraram nos Açores, se fechou a fábrica do peixe no Faial, se deixou a marina da Horta subdimensionada, se impediu o DOP de lecionar licenciaturas relativas ao mar ou se tirou de cá a Rádio Naval para a pôr em Ponta Delgada, etc. Foram sim maldades de quem conhecia muito bem a geografia dos Açores que prejudicaram a nossa ilha

É verdade que nos últimos anos começaram a surgir alguns investimentos não reprodutivos no Faial, mas também sei quanto tempo foi preciso uns reivindicarem para outros de má vontade cederem e para depois estes de boa vontade virem cortar a fita e recolher os louros sozinhos, como se tal não fosse fruto da muita insistência de gentes que frequentemente até nem estava no poder.

A ignorância e as confusões de geografia corrigem-se rapidamente, as maldades geográficas é que podem causar danos irreparáveis às regiões prejudicadas.

As decisões dos cardeais e reis na Lisboa distante de atribuir no passado a Angra a sede do bispado e a impor a passagem pelo seu cais das caravelas não impediram o porto da Horta de ser o mais apetecido pela navegação ao longo de séculos e de ser o mais importante no início do século XX ou de Ponta Delgada se tornar na maior cidade dos Açores. Contudo, hoje em dia, mesmo com a Autonomia e sem capital oficial, os riscos de encolhimento económico e social do Faial são bem maiores do que então, pois agora as maldades fazem-se por autoridades situadas nestas ilhas, só que de uma forma astuta e não a coberto da ignorância geográfica.

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