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Archive for 15 de Julho, 2014

Meu artigo de hoje no diário Incentivo:

HÁ SEMPRE QUEM SAIBA VENDER BANHA DA COBRA

A minha experiência de vida permite-me dizer que não faltam estudos a qualquer vendedor de banha da cobra para apoiar as ideias que ele nos queira impingir.

Nos tempos modernos a ciência goza de uma credibilidade social semelhante à da religião antigamente e por isso não faltam hoje em dia tentativas de determinados grupos apresentarem estudos que deem suporte científico aos seus interesses. Só que se a evolução tecnológica resultou de análises bem concebidas, também não faltaram trabalhos que selecionaram os parâmetros que permitiam resultados favoráveis às teorias que alguns defendiam. Felizmente a ciência é alvo de contraditório e nas publicações onde esses resultados são divulgados também os mesmos são debatidos e muitas vezes rebatidos por quem não aceita dados viciados.

Infelizmente na política, na economia, na publicidade e talvez noutros setores são divulgados com alguma frequência estudos que apontam para determinadas conclusões sem o devido contraditório, influenciando assim a população para ideias que não estão de facto cientificamente validadas.

Muito recentemente surgiu um estudo onde se deduzia que os políticos portugueses se situavam entre os mais cumpridores do mundo, mas os jornais que pegaram nas conclusões não tiveram o cuidado de expor os critérios que permitiram a investigação chegar a tal conclusão tão desfasada da realidade quando se compara com os frutos que se veem noutros países da Europa do Norte.

Sem dúvida que me ri do estudo e mais ainda de haver órgãos de comunicação social que tão facilmente se prestam a fazer “fretes” deste género a favor de uma classe nacional cuja sua ação nas últimas décadas levou Portugal à bancarrota, não garantiu uma economia sustentável, desertificou o interior do Continente e das ilhas mais pequenas e nem foi capaz de tirar uma franja significativa da população da miséria.

Já lá vão quase dois anos que aqui denunciei que os navios de pesca espanhóis que temos visto na baía da Horta atuam nos Açores em regime colonial: retiram o recurso natural local a preço de mercado e levam para a Espanha o pescado para aí criar mais-valias, emprego e dinamizar a sua economia. Tal como gostam de fazer certos países ricos nos pobres Estados africanos, nos do sudoeste da Ásia e nos da América Latina e antigamente faziam as potências europeias nas suas colónias.

Na semana passada a estatística deste negócio foi utilizada da mesma forma que muitos estudos tendenciosos, pois tentou passar a ideia de que este género de comércio era uma riqueza para os Açores, pois os palangreiros até deixam cinco milhões de euros por ano no Faial.

Claro que não interessa a quem divulgou tais resultados dizer quanto emprego, mais-valias industriais e dinheiro de comercializar os produtos transformados neste negócio se criou na economia espanhola e que se tivesse sido aplicado aqui teria a potenciado da riqueza deste pescado em benefício do Faial. Este valor não divulgado corresponde ao montante do saque em estilo colonial feito a coberto das autoridades que legalmente o permitiram na nossa ilha e que têm o descaramento de ainda o apresentar como algo que nos seja positivo.

É que se tudo fosse contabilizado e investido no Faial, a fábrica de peixe estaria aberta empregando muita gente, o peixe transformado em conserva, fumado ou noutro género estaria a ser exportado e um grupo de comerciantes locais estaria igualmente ativo e a criar empregos indiretos deixando na nossa ilha seguramente muito mais que cinco milhões de euros anuais.

Compreendo a tentativa dos nossos governantes, que não foram capazes ou não quiseram fazer melhor, em se esforçarem por demonstrar que estamos perante um grande negócio. Mas só acredita nisto quem quer e se deixa manipular (por ignorância ou falta de espírito crítico) com este modo de apresentar dados que não mostram a realidade como esta deveria ser apresentada. Também é verdade que se as oposições fizessem o trabalho de casa nos seus grupos de apoio técnico este género de situações seria atempadamente denunciado.

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